APLetras, 75 anos incentivando a cultura

José Ernani de Almeida
(cadeira 4)


Neste domingo, 7 de abril, a Academia Passo-fundense de Letras estará comemorando os seus 75 anos de fundação. Na verdade, sua história começou como Grêmio Passo-fundense de Letras, iniciativa do pastor metodista Sante Uberto Babieri tendo como sede o salão da Prefeitura Municipal, onde hoje está o Museu Ruth Schendeir. Era o ano de 1938, período do chamado Estado Novo de Getúlio Vargas, que se estendeu até 1945, marcado pelo autoritarismo e a censura. No plano mundial os totalitarismo avançavam a passos largos: o nazismo na Alemanha e o fascismo na Itália. O resultado foi a explosão da Segunda Grande Guerra em 1939.

O Grêmio Passo-fundense também sofreu as agruras daquele período de exceção como registra a sua história: “em 30 de julho de 1943, o secretário do Grêmio Passo-fundense de Letras foi chamado à Delegacia de Ordem Política e Social, poucas horas depois de uma palestra de Érico Veríssimo, patrocinada pela instituição”. O registro atesta a atuação da estrutura de repressão que havia sido criado pela ditadura varguista como forma de impedir críticas ao regime vigente. Diante do quadro nacional e internacional o Grêmio de Letras suspendeu suas atividades no ano de 1945, só voltando a atuar em 1946.

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É importante salientar que o período de 1946 a 1960 pode ser identificado como o momento áureo do crescimento da indústria cultural no Brasil, no qual a presença direta do Estado como elaborador e fomentador de políticas culturais era bastante restrita. Assim, na década de 1950, no embalo dos chamados anos dourados, marcados pela bossa-nova e o cinema-novo, os gremistas passofundenses, influenciados pelo que estava ocorrendo no país, estiveram envolvidos em importantes projetos como estudos sobre os nomes das ruas de Passo Fundo, criação da Universidade local, da Escola de Belas Artes, do Instituto Histórico, inauguração da Biblioteca Ambulante e com colocação de estantes de livros nas estações rodoviárias de Coxilha, Sertão e Tapejara.

O início da década de 1960 carregava promessas de mudanças profundas, tanto na política como nos campos das linguagens artísticas e das práticas culturais. Por um lado, havia a cultura de massa com o rádio e a televisão invadindo os lares e transformando hábitos cotidianos; o cinema hollywoodiano criando mitos e novas práticas de consumo; as revistas O Cruzeiro e Manchete criando uma nova estética editorial, e, ainda, as fotonovelas alimentando sonhos com seus contos de amor. Entre nós, em 7 de abril de 1961 era instalada a Academia Passo-fundense de Letras. Foi o ano marcado pela renúncia de Jânio Quadros, pela tentativa de impedir a posse de João Goulart e pela Campanha da Legalidade, que garantiu a ascensão de Jango ao poder. Em 1964 um golpe militar derrubaria Goulart e o país passaria a viver um longo período de ditadura.

Na nossa academia os registros históricos demonstram a influência do regime militar, já que em seus anais figuram com frequência palestras e discursos proferidos pelos comandantes militares locais. Fica claro que a academia também foi obrigada a se adaptar aos novos tempos. Com o fim do regime militar na década de 1980, a preocupação dos acadêmicos passou a ser a reorganização do quadro social e a recuperação do prédio da Academia. Na década de 1990 a academia promoveu inúmeros concursos literários, publicou anuários, livros, artigos, poesias, crônicas, contos e atividades culturais. Em 7 de abril de 2002, após oito anos, a Academia voltou ao seu antigo prédio e, em 2003, lançou a primeira edição da revista Água da Fonte, órgão oficial a APL.

Ao longo de sua história, a Academia congregou e foi dirigida por personalidades que marcaram a história de Passo Fundo, envolvendo historiadores, poetas, romancistas, cronistas, cientistas e jornalistas. Entrar numa Academia de Letras não torna ninguém melhor escritor, não transforma ninguém em gênio.

A Academia reúne pessoas que desejam superar suas próprias limitações, pessoas que querem construir, que querem fazer de nossa cidade um lugar melhor para se viver, que querem melhorar a educação e a cultura, que querem construir um lugar em que todos possam ter uma existência digna e justa, livres da barbárie do pensamento único que a cultura de massas quer impor. Pessoas que querem mostrar a beleza das artes, das delícias de ler um romance ou uma poesia. São pessoas apaixonadas pelo que fazem, e exatamente por serem apaixonadas é que levam a cabo obras verdadeiramente duradouras e fecundas.

Parabéns ao presidente Osvandré Lech e a todos os integrantes da Academia pelos seus 75 anos de atividades.

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