HERCULANO ARAUJO ANNES, o patrono da Cadeira nº 15 da Academia Passo-Fundense de Letras, é filho do coronel Gervasio Lucas Annes (1853-1917), advogado (rábula) e destacado lider político do Partido Republicano, e Etelvina Araujo Annes (1860-1901). Nasceu em Passo Fundo, no dia 19 de março de 1898, na Rua do Comércio, a atual Avenida Brasil.
O matrimônio Gervasio Lucas Annes e Etelvina Araujo Annes, além de Herculano Araujo Annes (1898-1967), tiveram os filhos Armando Araujo Annes (1881-1967), Branca Araujo Annes (1885-1910), Antenor Araujo Annes (1889-1909), Morena Araujo Annes (1892-1982) e Gervasio Araujo Annes (1901-1984). Depois da morte de Etelvina, ocorrida em 20 de abril de 1901, o coronel Gervasio Lucas Annes consorciou-se com a Sra. Ambrosina Pinto de Morais, viúva do major Osorio de Morais Silveira, e tiveram uma filha, Lourdes Morais Annes, que completa a relacão dos irmãos de Herculano A. Annes.
Herculano A. Annes estudou no colégio dos jesuitas, em São Leopoldo, e, aos 23 anos, em 1921, formou-se no curso de Direito pela Faculdade Livre de Direito da Universidade do Rio Grande do Sul, atual Faculdade de Direito da UFRGS, com sede em Porto Alegre. A 15 de maio de 1920, Herculano A. Annes casou-se com Cecy da Rosa Coutinho (1901-1964), que era natural de Taquari. Depois da formatura em Direito e do casamento, Herculano e Cecy fixaram residência em Passo Fundo, onde nasceram os filhos Flávio Coutinho Annes (1921-1990), engenheiro-agrônomo, foi professor e diretor da Faculdade de Agronomia da Universidade de Passo Fundo (UPF); Antenor Coutinho Annes (1922-1958), contabilista; Murilo Coutinho Annes (1925-2007), formado em Direito pela UFRGS, foi advogado, juiz, e interventor (1964-1970), reitor e professor da UPF (1970-1979); e Branca Annes Degrazia (1926).
Herculano A. Annes foi um homem atuante na imprensa passo-fundense. Fundador e diretor do semanário “A Época”, em 1923, em cujas páginas escreveu artigos doutrinários, editoriais e comentários que marcaram indelevelmente um período conturbado da vida política e administrativa do Rio Grande do Sul. Mas, sem dúvida, a sua maior contribuição para a imprensa local foi a criação do jornal O NACIONAL, ainda hoje em circulação em Passo Fundo. No dia 19 de junho de 1925, uma sexta-feira, circulou a primeira edição de O NACIONAL, com o epiteto de “Jornal Independente”, constando no expediente como diretor Dr. Herculano A. Annes e, seus primos Hyran de Araujo Bastos e Americano de Araujo Bastos, como gerentes. A redação e a gerência de O NACIONAL, na época, funcionavam na Livraria Nacional, localizada na Praça Marechal Floriano, 25, 27 e 29, no centro da cidade. O Dr. Herculano A. Annes esteve à frente de O NACIONAL durante 15 anos (até 30 de abril de 1940), imprimindo, nesse jornal, uma linha editorial marcada pela imparcialidade, ao levar à risca o lema da “liberdade máxima dentro da maxima responsabilidade”, conforme expresso no editorial da primeira edição, que se comprometia com o respeito a liberdade alheia, não concedendo anonimato e nem admitindo parcialidade em assuntos relacionados com política partidária e vida religiosa.
No exercício da advocacia, Herculano A. Annes destacou-se especialmente na área empresarial. Na sua carteira de clientes constavam as seguintes empresas: Banco da Província do Rio Grande do Sul, Banco Nacional do Comércio, Estância Julio Mailos S.A. (com sede em Montevidéu), Fazenda Sarandi de Boaventura Caviglia & Hijo (de Montevidéu) e Jewish Colonization Association (com sede em Paris), entre outras.
Detentor de cultura jurídica diferenciada em meio às hostes locais, com formação universitária em um ambiente onde atuavam muitos advogados rábulas, o Dr. Herculano A. Annes conquistou posição de destaque entre os pares, tendo sido fundador e presidido, diversas vezes, a subsecção da OAB do Rio Grande do Sul em Passo Fundo. Também foi colaborador dos círculos esportivos da cidade, especialmente em assuntos relacionados com o Grêmio Esportivo 14 de Julho.
Ainda que tenha declarado, nas “Palavras Iiniciais” do livro “Na estrada da vida”, publicado em 1966, jamais ter frequentado um centro espírita, Herculano A. Annes, nos seus escritos da velhice, que rotulou de “ensaios espiritualistas”, demonstra conhecimento e forte apego à doutrina espírita, ao descrever sessões familiares protagonizadas por ele e sua esposa, Dona Cecy, em colaboração com duas entidades espirituais que davam as iniciais de B e D.
“Na estrada da vida”, obra que foi impressa para o autor pela Livraria do Globo, originalmente destinada a circulação restrita entre os familiares de Herculano A. Annes, sobressai-se pela cultura humanistica do autor, que a recheia com citações de pensadores das mais variadas matizes, e o apego de Herculano e Cecy à espiritualidade para afugentar a depressão e os problemas que comumente rondam as pessoas no limiar da velhice. Nesse aspecto, é um livro iluminador, cuja concretude, pelo que deixou transparecer nos tópicos “Fim de uma passagem, fim de um livro” e “Palavras finais”, foi fundamental para Herculano suportar a morte de Dona Cecy, ocorrida em 12 de setembro de 1964.
Herculano A. Annes morreu no dia 19 de dezembro de 1967, cercado de filhos e netos, na antiga residência da Av. Brasil, nº 684, esquina com a Rua 15 de Novembro, casualmente ou não, apenas alguns metros distantes da “calçada alta”, nº 782, onde 69 anos atrás havia nascido. Em sua homenagem, no ano seguinte (1968), o então prefeito Mário Menegaz mandou construir uma praça junto à ponte do Rio Passo Fundo. Era o reconhecimento da municialidade pelo muito que ele fez por Passo Fundo.
Obras consultadas
ANNES, A.O. Genealogia Lucas Annes: compêndio ilustrado. Passo Fundo: Ed. Autor (pdf), 2012. 405p.
ANNES, H. A. Na estrada da vida: ensaios espiritualistas. Porto Alegre: Livraria do Globo, 1966. 287p.
GEHM, D. R. Passo Fundo através do tempo. Passo Fundo: Prefeitura Municipal de Passo Fundo/Secretaria Municipal de Educação, 2º v., 1982. 206p.
O NACIONAL jornal independente. O Nacional, Passo Fundo, ano 1, número 1, 19 jun. 1925. 4p.
